VI Bienal do Livro de Pernambuco

05 a 14 de outubro de 2007
Centro de Convenções de Pernambuco

13.10.2007 - 9:29

Língua do p é mais um blog que vira blook

Quem foi o primeiro otário que disse que a internet ia acabar com o livro? Em qual oráculo ouviram tal asneira os arautos do pessimismo? O tiro saiu pela culatra. Não conheço nenhuma estatística apontando que o número de correspondências diminuiu por causa da troca de e-mails e conversações online. E os blogs – esse fenômeno absurdo e maravilhoso, enterrou a imprensa? Matou, também, o livro? Não. Uma prova inconteste da vitaminada que a internet deu à literatura é o escritor pernambucano Pedro Fonseca, que hoje lança na 6ª Bienal Internacional do Livro, no Centro de Convenções, o seu primeiro livro. Chama-se sintomaticamente Língua do p. Sim, poderíamos listar mais uma dezena de fenômenos da internet, mas não há espaço e tempo a perder…

Não, não se trata de uma obra escrita na Língua do p, como naquela brincadeira infantil. Nem foi escrito para crianças, embora elas devam ler, quando ficarem mais crescidinhas. Sintomaticamente, disse, porque Língua do p é, claro, óbvio, ululante o nome do blog de P(edro) – de quem eu nunca havia ouvido falar até me cair nas mãos o livro. P. resolveu reunir seus melhores achados (poemas, aforismos, divagações, prosa poética, crônica, com erros de português e tudo, ele confessa) escritos desde 2005 no velho e secular formato de Gutenberg. Sendo uma obra escrita no computador e postada na internet, os especialistas classificam Língua do p de papel não um simples livro, mas um blook. Ok, ok.

E o que busca o estreante escritor de 32 anos, publicitário por profissão – e também compositor (de samba, de rock, de balada)? A visibilidade e a perenidade? Aqueles outros leitores que não sabiam da sua existência na blogsfera? Talvez a satisfação do desejo de dar autógrafos? De querer ver alguém passeando com o livro pelos bares da vida e ganhar algum trocado? (O blook tem 222 páginas, custa R$ 30 e ele tem mil exemplares para desovar) Vá saber lá.

Pedro Fonseca tem credencial – o jornalista Geneton Moraes Neto as apresenta. E mais: descende de uma estirpe que domina a escrita. É filho do jornalista Homero Fonseca, um dos editores da Continente Multicultural, autor de Roliúde, o romance picaresco sobre Bibiu, um matuto contador de filmes, que autografou na Bienal do Livro. Pedrinho (para os amigos) é também sobrinho de Héber Fonseca, um dos grandes pesquisadores e críticos de música que Pernambuco já teve. Pai e tio primam pela qualidade do texto. Estilo também não faltam ao autor de A língua do p, que todavia não conseguiu depurar o que há de publicitário em seus escritos. Isso é bom e é ruim.

Bom porque a publicidade joga com as palavras, apela para os sentimentos, não é verborrágica, exige que num flash se diga ou sugira uma idéia luminosa – tal como nos haicais ou num filme de curta-metragem (videoclipe não conta porque tem muitas idéias fora do lugar). Ruim porque às vezes pode ser um atalho pelo caminho mais fácil, um mergulho na superfície das coisas. Pecados que existem mas são em menor monta.

Língua do p exala frescor de linguagem e tem uma bem sacada diagramação (assinadas por Matheus Barbosa e Daniel Pinheiro, uns craques). Da prazer de ler a fluidez do texto na página impressa. Às vezes, escorregam na ousadia, mas é até bom: a gente para um pouco a leitura para tentar entender o que está escrito. Mastiga, se intriga, critica, fustiga.

Pedro fala o que der na telha. Fala do próprio escrever (que escritor não fala?). Fala de amor e de morte, porres, psicanálise, iniciação sexual. E do que há do outro lado da janela, do que dá prosa ou poesia e termina em samba ou na cama. Escreve sobre alegria e miséria, praia e favela. Nem tudo é genial, mas ele tem os genes do humor, da ironia, da observação arguta e pitadas de lirismo. Sabe que palavras são comportas, abrem caminhos.

Um lembrete final: não procure Pedro Fonseca no labirinto da Bienal do Livro. Numa jogada de marketing, ele decidiu autografar Língua do p na brisa vespertina que corre do lado de fora do pavilhão do Centro de Convenções, ao cair da tarde – hoje, depois das 16h.

Fonte: Marcelo Pereira/Jornal do Commercio

Sobre a Bienal

A Bienal Internacional do Livro de Pernambuco chega à sexta edição consolidada como o 3º maior evento literário do país

Saiba mais sobre o evento

Oficinas Gastro-literárias

Pela primeira vez uma Bienal do Livro explora a relação entre literatura e gastronomia

Presenças confirmadas

Confira a lista completa

Hipopocaré comemora 25 anos e vira o mascote da Bienal

Participe da Bienal

Patrocinadores
Apoio
Realização
Gráfica Oficial
Site