14.10.2007 - 12:55
Reforma divide opiniões
A reforma ortográfica nos países de língua lusófona foi um dos temas mais debatidos durante a 6ª edição da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, que é encerrada hoje, no Pavilhão do Centro de Convenções. A decisão de unificar o português do Brasil, Portugal e das ex-colônias portuguesas na África é polêmica em meio aos escritores.
O português Jorge Reis-Sá, um dos convidados da Bienal, autor do livro Todos os dias, é contra a unificação. “Acho um absurdo estarmos a tentar homogeneizar um idioma. É bonito que dentro de uma mesma língua exista essa diversidade. Parte da beleza do texto é a dificuldade de compreendê-lo”, ressaltou o autor. “A língua é como um ecossistema e depende da diversidade para sobreviver.” “Qualquer ato que venha a tolher a diversidade é castrador”. Reis-Sá afirma que, no seu próximo livro, usará palavras com tremas, mesmo que não sejam adotados em Portugal, apenas por resistência. Ele considera também que a unificação quebraria com conceitos estéticos de fonética, que variam de país para país.
Reis-Sá diz que mesmo que o Brasil esteja discutindo o acordo com Portugal, a normalização parece totalmente fora de cogitação por lá. “Em Portugal não está sendo discutido esse acordo. Eu só soube porque vim ao Brasil. Lá isso não é notícia”, completou o escritor português.
Já o pernambucano Marcelino Freire acha essa história toda de unificação uma chatice. “Uma chapação”, que na sua opinião só esconde interesses financeiros. “Não acredito que seja para melhorar. Nunca acredito nisso. Em projeto para unificar. Eu quero desunificar a língua. Como escritor, deixem que eu mesmo mexa nela. Requebre e rebole. Bote ou não bote trema. Deixem que eu trema. Que eu junte ou não junte. Minha pátria é minha língua. Logo, única. Viciada. Por que, ora, em vez disso, atenção e aviso: o pessoal não se preocupa em banir o estrangeirismo excessivo pelas ruas e ‘shoppings’. Pelos edifícios. Xô, MacFish. Quero o peixe, o tubarão. Certo? Chega de ‘all right’, meu irmão”, continua Marcelino.
A discussão em torno da reforma ortográfica retorna hoje, às 16h, no Espaço Universitário, com uma palestra da professora do Departamento de Letras da UFPE, Nelly Carvalho. Nelly tem acompanhado a proposta de unificação desde que ela começou a ser discutida, nos anos 80. “É importante que essa unificação exista, porque é estranho que o Brasil e Portugal falem idiomas diferentes. Além disso, não vejo porque tanta polêmica, porque a porcentagem de mudança é muito pequena. Em Portugal, ela não chega a 2%. No Brasil, não chega a 1%”, destaca a professora.
“Essa questão da língua é muito importante, porque não podemos esquecer que língua é poder. Quando os colonizadores chegaram aqui, lembre que a primeira coisa que eles fizeram foi ensinar o português aos nativos. Os Estados Unidos são uma potência, porque o mundo inteiro fala inglês”, aponta Nelly.
Segundo Nelly, é um absurdo que, no Brasil, a língua seja regida por decreto de lei. “É só você olhar o dicionário, para ver que são os presidentes que aprovam as leis, pessoas que em sua maioria não entendem nada de língua. Esse é um processo que deveria ser feito pelos gramáticos, por pessoas que tivessem noção do idioma”, completou.
Fonte: Jornal do Commercio