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Histórias

  • out
  • 09
  • 2009

O caldo de cana, ou leva pedrada!

Categorias: Histórias

História de Zélia de Oliveira Gominho

Um dia, no centro do Recife, fui ameaçada por causa de um copo de caldo de cana.
Um rapazinho, por volta de seus 12/ 14 anos, ou mais, irrompeu na lanchonete junto com outro maior que ele; pegou um copo no lixo e exigiu que eu desse um pouco do caldo que eu havia acabado de receber; quase que eu cedo, mas o funcionário da lanchonete interveio. Mesmo assim, ele insistiu. Num relance, pensei em comprar um caldo para ele e o amigo, mas ao contrário de muitas crianças pedintes, que usam da estratégia de ficar de longe, mas por perto, com a esperança de ser atendido, ele, o garoto, passou a me ameaçar em frente à lanchonete; a ponto de dizer que eu dormiria ali, pois ele ficaria me esperando. Os funcionários da loja tentaram me tranqüilizar; disseram que eu podia sair que não iriam fazer nada. Um idoso, que estava na calçada, tomou a pedra da mão do garoto, mas ele a retomou do chão. Então, o colega o fez desistir; tirou a pedra da mão dele e foram embora. Na hora, fiquei temerosa por mim e por minha mãe, que estava comigo, e também pelas pessoas que tentavam afastá-los.
Percebi que seu interesse não era apenas o caldo, mas os óculos escuros pendurados na blusa – que guardei olhando pra ele -, e, talvez, a bolsa. Pensei em dar não apenas uma parte do caldo de cana contido no meu copo, mas um copo limpo, exclusivamente pago para ele; contudo, a agressão me conteve. O fato de se “comportar mal” – coisa de mãe – me fez entender que ele não merecia “o prêmio”. Minha reação, reforçada pelos presentes, foi não aceitar a imposição.
Quantas vezes agimos (ou agíamos) assim com nossas crianças: “senão fizer o que estou mandando vai apanhar!”, ou “vai ficar de castigo!”, “ou vai deixar de fazer/ ganhar aquilo que tanto gosta/ deseja”. Eu ia levar uma pedrada, ficar de castigo na lanchonete, perder o meu direito de ir e vir e não poderia seguir os objetivos que havia traçado para aquele dia. Não é brincadeira; é reprodução de uma prática social.
Teve um momento que pensei na polícia; cheguei a falar: “tem polícia aqui por perto?” E, ao mesmo tempo, eu sabia que podia ter, mas não adiantava muito – às vezes os policiais vêem a cena e não se mexem. Teve alguém que disse na lanchonete que esses meninos tem casa, tem família, que eles deviam estar “tudo morto”. A revolta é grande.
Há muito tempo que não tomava caldo de cana; nesse dia, além da sede, deu vontade. A impossibilidade de usufruir com prazer e tranqüilidade o que o centro da cidade oferece nos incomoda. Você tem que andar e fazer tudo muito rápido, não pode prestar muita atenção nas coisas e nas pessoas, mas deve estar alerta à presença dos meninos de rua, dos descuidistas, dos espertalhões, etc. Esse menino não roubou nada material, mas me subtraiu o sabor da bebida e um momento de relaxamento diante da correria. Mas, não foi só uma subtração; ele, sem querer, me deixou questões, que se multiplicam à medida que continuo a pensar no assunto: – Por que tanta agressão?
Crianças na rua sempre existiram, delinqüentes não são novidades do nosso tempo; creio que são, cada vez mais, uma gravidade. Há uma legislação, mas não uma ação efetiva em prol do bem-estar da infância e da juventude. Não sou tão idealista em acreditar que, um dia, viveremos sem esses problemas, mas devemos fazer um esforço para que a situação não se torne insustentável – e creio que já se tornou. Essa criança tem um tremendo “copo”, feito exclusivo para ela : o Estatuto da Criança e do Adolescente. Estatuto que não adoça plenamente sua vida, mas permite que ele continue, assim, solto pelas ruas, aprendendo com essa vida de rua a intimidar as pessoas; e ninguém pode fazer nada, sob o risco de ser incriminado. Muito discurso, pouca prática. Todo mundo levanta a bandeira da educação, da saúde e da segurança como primordiais, mas quando se fala de recursos, estruturas adequadas, remuneração dignas, aí todo mundo tem que ser voluntário, missionário, sacerdote, “amigo da escola”. O improviso é a regra, e o desvio é a prática. E a criança continua lá: no sinal, na zona, nas ruas, ou na escola fingindo que estuda pra receber bolsa-escola, porque basta estar lá [naquela escola superlotada e inadequada], não há nenhuma cobrança de desempenho, de aprendizagem para receber o dinheiro. São tantas as questões; e quanto mais eu penso mais minha cabeça fervilha e me sinto impotente; porque se cada um realmente fizesse sua parte, beber um copo de caldo de cana no centro da cidade não seria um risco, e aquela criança poderia estar desejando “um caldo de cana” e muito mais sem agredir ninguém.

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