História de Hermes de Melo
Futebol é um esporte de sucesso mundial. Cada dia mais paises aderem a esta paixão. Tem lá sua importância econômica, é verdade, mas por que essa magnitude e dimensão com o futebol? Já o analisou-se psico-sociologicamente e se concluiu que vamos ao estádio para colocar pra fora nossas frustrações diárias. Vamos com a mesma disposição que o povão ia ao Coliseu ver gladiadores se matar. Vamos pra, protegidos pelo anonimato, xingar o árbitro ou os jogadores porque não podemos xingar o chefe ou outras pessoas que nos relacionamos no dia-a-dia.
Raramente vou a estádios. Vou apenas para conhecer os mais pitorescos como o Maracanã ou o Morumbi, já que não sou torcedor de nenhum time daqui ou muito menos de lá. Claro que também conheço os do Recife, mas vou mais pra analisar as reações das pessoas que assistir aos jogos e, não raro, perco todos os gols da partida, como numa (Flamengo 3 X 3 Vasco) que assisti no Maracanã em 1999 ou 2000 se não me falha a memória. Se um dia você vir alguém permanecer sentado com um copo de cerveja na mão enquanto o estádio vai abaixo pela comemoração de um gol, este alguém sou eu.
Acho que o futebol faz sucesso por ser a melhor metáfora da vida. Senão vejamos: Primeiro, o sucesso de um time é conseqüência de uma mistura conhecida: talento, trabalho e sorte. Freqüentemente vemos um time, teoricamente mais fraco bater um mais forte. Também vemos um time persistente virar o jogo aos 45 do segundo tempo. Assim como a vida o futebol é uma “caixinha de surpresa”.
Algumas pessoas que têm tudo pra dar certo na vida, às vezes, dela leva coro. Neste aspecto, meu amigo Pepa diz, por exemplo, que intelectual é aquele cara muito inteligente que não conseguiu aprender a ganhar dinheiro. Outras que não seguem um caminho mais tradicional conseguem vencer de goleada. Às vezes, também há reviravoltas, bambo, gol de canela, pênalti perdido, arbitragem incompetente, e aí esta a graça da vida e do futebol: uma certa imponderabilidade. Ou seja: o imprevisível pode acontecer e o previsível não.
Quando se pensa que já se viu tudo, eis que a vida lhe mostra que ainda é hora de aprender. Pensei que já tinha visto muita coisa em futebol até ver o Náutico, em 2005, disputando uma vaga com o Grêmio de Porto Alegre para ascender a 1a. divisão, precisando, apenas, do empate, tendo o Grêmio vários jogadores a menos, perder por 1X0, depois do Náutico, ainda, ter perdido dois pênaltis.
Copa do Mundo acompanho com afinco. Sou patriota. Passada a frustração de não ter dois times pernambucanos ou nordestinos na primeirona, tratei de acompanhar as partidas da Copa do Mundo, pela TV, claro! Dia 11 de junho de 2006, fui assistir no Bar de Zezinho em Candeias o jogo Portugal e Angola, válido pelas eliminatórias da primeira fase. Não imaginava que pudesse alguém torcer com paixão naquele local, até que aos 5 segundos do primeiro tempo, Portugal quase abre o placar num chute cruzado. Vi um torcedor se movimentar com aflição e puder reparar melhor que ele estava com uma camisa da seleção portuguesa. Mais 4 minutos e Figo abre o placar: 1X0 pra Portugal. O torcedor – apenas ele e ninguém mais – se levantou e vibrou esfuziantemente. Até aí tudo bem, deduzi o óbvio: ele era português sem dúvida, mas o fato dele vibrar e não emitir nenhum som me pareceu estranho. Foi o primeiro torcedor que conheci que se levanta, vibra, gira a camisa, mas não diz nada: nem o insegurável gooooooool. Era sem dúvida o torcedor mais discreto que já vira, talvez por respeitar o fato de ninguém ali estar interessado no resultado do placar além dele.
Jogo vai, jogo vem. Bebida vai, bebida vem. O torcedor que a esta altura já era folclórico sentou-se na minha mesa, foi quando o mistério se revelou: ele era mudo. O que mais posso ver na vida…ou no futebol?