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	<title>Bienal Internacional do Livro de Pernambuco &#187; Histórias</title>
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		<title>Alma de Poeta</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Sep 2011 15:14:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Raboni</dc:creator>
				<category><![CDATA[Histórias]]></category>

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		<description><![CDATA[Poema enviado por Cleiton F. Vieira do Blog Diário de Sonhos Alma de poeta, Sempre inquieta, Prestes a versar, Linhas contidas, Com lágrimas sentidas, Dê mim teu lenço para enxugá-las! Ah! Se minha tu fosses, Oh! Doce criatura, Minha alma farta de amargura, Acreditaria na sorte, No vento rumo ao norte. Ah! Se minha tu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Poema enviado por Cleiton F. Vieira</em><br />
<em>do Blog <a href="http://www.poetadosonho.blogspot.com/" target="_blank">Diário de Sonhos</a></em></p>
<p style="padding-left: 30px;">Alma de poeta,<br />
Sempre inquieta,<br />
Prestes a versar,</p>
<p style="padding-left: 30px;">Linhas contidas,<br />
Com lágrimas sentidas,<br />
Dê mim teu lenço para enxugá-las!</p>
<p style="padding-left: 30px;">Ah! Se minha tu fosses,<br />
Oh! Doce criatura,<br />
Minha alma farta de amargura,<br />
Acreditaria na sorte,<br />
No vento rumo ao norte.</p>
<p style="padding-left: 30px;">Ah! Se minha tu fosses,<br />
Aceitaria as regras do destino,<br />
Que faz um homem ser como um menino,<br />
Amar sem nada pedir!</p>
<p style="padding-left: 30px;">Por isto a minha alma de poeta,<br />
Por natureza tão inquieta,<br />
Te chama, chora e espera,<br />
O momento certo para te abraçar,<br />
Um amor eterno te entregar,<br />
Pois é chagada a hora, devo partir!</p>
<p style="padding-left: 30px;">Tal qual uma corsa,<br />
A suspirar pelas águas,<br />
Por ti suspiras também minha alma!<br />
Que pede, implora por uma trégua,<br />
Que passe a dor deste amor,<br />
E arranque a angustia deste meu coração sofredor!</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A pessoa só se prejudica</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Sep 2011 02:35:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Raboni</dc:creator>
				<category><![CDATA[Blog do Bienaldo]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias]]></category>

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		<description><![CDATA[Crônica enviada por Diego Oliver &#160; Estava chovendo muito e eram sete da manhã. Eu estava apressado, terminando de arrumar minhas coisas, pois iria pegar uma carona dali a cinco minutos com uma vizinha. Consegui ficar pronto às 07h04 e saí correndo e me molhando todo, pois não tive tempo nem de abrir o guarda-chuva. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Crônica enviada por Diego Oliver</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Estava chovendo muito e eram sete da manhã. Eu estava apressado, terminando de arrumar minhas coisas, pois iria pegar uma carona dali a cinco minutos com uma vizinha.</p>
<p>Consegui ficar pronto às 07h04 e saí correndo e me molhando todo, pois não tive tempo nem de abrir o guarda-chuva. Quando abro o portão da minha casa, eu vejo minha carona já no fim da rua, virando a esquina. Logo pensei: “A pessoa só se prejudica!”.</p>
<p>Finalmente fechei o portão, tirei o guarda-chuva da bolsa e o abri, caminhando lentamente para não me estressar, rumo à BR para pegar o ônibus a fim de chegar à Universidade. Quinze minutos depois, cheguei à BR. A parada de ônibus estava lotada. Os ônibus passavam e, já lotados, não paravam. Logo pensei: “A pessoa só se prejudica!”.</p>
<p><span id="more-5270"></span></p>
<p>Finalmente um parou: Barro/Prazeres. Foram dez minutos até que todos da parada tivessem subido no coletivo. O aperto foi grande, de tal modo que eu não podia nem levantar meu pé, se não perdia a vaga. Não lembro como é a sensação de nascer, mas tenho quase certeza que é muito parecida com o momento que a gente tenta descer daquele ônibus. Eu fui empurrado até ser expulso. Logo pensei: “A pessoa só se prejudica!”.</p>
<p>Às 07h40 cheguei à Estação do Barro e já estava pensando no tamanho da fila do meu segundo ônibus: Barro/Macaxeira (Via Várzea), porém para minha surpresa havia um ônibus no terminal, pronto pra sair. Subi no ônibus, fiquei em pé, mas pelo menos estava nele. Às 08h, horário que iniciavam as minhas aulas, o ônibus saiu. Às 08h01 o ônibus quebrou. Logo pensei: “A pessoa só se prejudica!”.</p>
<p>Desceram todos do ônibus de volta ao terminal e eu não querendo nem imaginar de que horas o próximo ônibus iria sair. De repente olhei para trás e notei que todos estavam subindo de volta no ônibus, gritando: “Pegou, voltou a funcionar!”. E foi aquela correria.</p>
<p>Todos de volta ao ônibus, porém agora eu havia me dado bem, pensei, consegui ir sentado e ao lado da janela. Os minutos passavam e eu não chegava à Universidade. Com tanta chuva, o resultado foram ruas alagadas e um trânsito infernal.</p>
<p>Consegui chegar às 09h, não antes de levar dois banhos no meio da rua. Logo, conclui: “Realmente, a pessoa só se prejudica!”.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Vida de Educador</title>
		<link>http://www.bienalpernambuco.com/vida-de-educador</link>
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		<pubDate>Fri, 09 Sep 2011 21:13:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Raboni</dc:creator>
				<category><![CDATA[Histórias]]></category>

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		<description><![CDATA[Poema enviado por Valdomiro Selva &#160; Nos dias atuais, ser educador É coisa de arrepiar Além de educar e lecionar Corre de um lado pro outro pra poder as contas pagar Anda de cara pra cima preocupado com o desempenho escolar Pensando! aonde fui me enfiar A marmita leva dentro da mochila sem tempo de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Poema enviado por Valdomiro Selva</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="padding-left: 30px;">Nos dias atuais, ser educador<br />
É coisa de arrepiar</p>
<p style="padding-left: 30px;">Além de educar e lecionar<br />
Corre de um lado pro outro<br />
pra poder as contas pagar<br />
Anda de cara pra cima<br />
preocupado com o desempenho escolar<br />
Pensando! aonde fui me enfiar</p>
<p style="padding-left: 30px;">A marmita leva dentro da mochila<br />
sem tempo de se alimentar</p>
<p style="padding-left: 30px;">Vive comendo besteira que acha no<br />
meio da feira<br />
pro mode a barriga remediar</p>
<p style="padding-left: 30px;">É pressão alta<br />
É estresse<br />
que vive a lhe rodear</p>
<p style="padding-left: 30px;">Corre pra escola<br />
Corre pra ensinar</p>
<p style="padding-left: 30px;">A comunidade manda seus filhos<br />
pra escola&#8230;<br />
Alguns chegam e estudam<br />
Alguns chegam pra aperriar<br />
Botam apelido: nos colegas,nos professores&#8230;<br />
O professor! finge que não escuta<br />
Conta um pouco da sua vida<br />
Dar uma bronca na turma</p>
<p style="padding-left: 30px;">Pede pra continuar,pois precisa a ensinar-lhe a ser gente educada,coerente e futuros profissionais.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Na ponta do lápis</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Sep 2011 20:23:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Raboni</dc:creator>
				<category><![CDATA[Histórias]]></category>

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		<description><![CDATA[Poema enviado por Rodrigo da Costa Não percebes como me feres? como me cortam as tuas palavras? É como lamina afiada, navalha em carne tuas palavras. Sádica poesia escreve, palavras escritas com sangue, não se apagam com o tempo; nem se desfazem com lagrimas. Não há tradução fiel; nem verbo que se conjugue; é a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Poema enviado por Rodrigo da Costa<br />
</em></p>
<p style="padding-left: 30px;">Não percebes como me feres?<br />
como me cortam as tuas palavras?<br />
É como lamina afiada,<br />
navalha em carne tuas palavras.</p>
<p style="padding-left: 30px;">Sádica poesia escreve,<br />
palavras escritas com sangue,<br />
não se apagam com o tempo;<br />
nem se desfazem com lagrimas.</p>
<p style="padding-left: 30px;">Não há tradução fiel;<br />
nem verbo que se conjugue;<br />
é a minha vida que escreves;<br />
revelas meu preterito,<br />
destrois o meu presente,<br />
Brincas com meu futuro.</p>
<p style="padding-left: 30px;">E o que sobra de minha vida?<br />
Não se contentas com meu sofrimento<br />
E roubas as virgulas, os pontos<br />
e não deixas rimas.</p>
<p style="padding-left: 30px;">Podes tingir minha pele<br />
com sua escrita de palavras tortas,<br />
podes usar cada gota de meu sangue;<br />
mas nunca irás tingir meus sonhos;<br />
pois dela só eu sou dono!</p>
<p><em>(Poesia publicada no blog de poesias e contos: <a href="http://www.sem-medo-de-pensar.blogspot.com/" target="_blank">www.sem-medo-de-pensar.blogspot.com</a> em 10 de Julho de 2011)</em></p>
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		<title>O Causo do Demo</title>
		<link>http://www.bienalpernambuco.com/o-causo-do-demo</link>
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		<pubDate>Fri, 09 Sep 2011 18:18:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Raboni</dc:creator>
				<category><![CDATA[Blog do Bienaldo]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias]]></category>

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		<description><![CDATA[Conto enviado por Mário Santos “O mito é o nada que é tudo” Fernando Pessoa. Era noite de sexta-feira treze, todo mundo sabe o que significa isso. Significa tudo e nada ao mesmo tempo. No interior, é noite maldita, como eles dizem “mardiçoada!”, no Recife poderíamos dizer que, por ser sexta-feira, é mais uma noite [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Conto enviado por Mário Santos</em></p>
<p style="text-align: right;">“<em>O mito é o nada que é tudo</em>”</p>
<p style="text-align: right;"><em>Fernando Pessoa.</em></p>
<p>Era noite de sexta-feira treze, todo mundo sabe o que significa isso. Significa tudo e nada ao mesmo tempo. No interior, é noite maldita, como eles dizem “mardiçoada!”, no Recife poderíamos dizer que, por ser sexta-feira, é mais uma noite de consolação pra quem trabalha feito um louco durante a semana, dia da “madeira” como se diz, isto é, noite de se divertir, beber, “encher a cara!”, ou seja, tudo de bom.</p>
<p>Quanto ao ser treze a data, não há muito que se dizer disso, afinal de contas, o capitalismo ainda não inventou nada para vender em especial nesse dia. Simplório o capitalismo. Mas no interior, a data é coisa séria. Lá pras bandas de Umarí ou São Vicente, costumam ocorrer muitos quiproquós numa noite como esta. Para piorar as coisas ainda mais, a lua estava tão cheia e amarela&#8230;</p>
<p><span id="more-5258"></span></p>
<p>– Isso aí é causo do demo, dizia seu Zé da viola, na calçada de casa, para umas senhoras religiosas muito devotas de nosso senhor, e continuava: É causo de se alarmar! A lua, Deus a fez branca, mas o demo que tudo entorta faz com que a pobre fique amarela a contra gosto de Deus, da cor do sangue venenoso do mardito!</p>
<p>– Virge santa!</p>
<p>– Ave Maria! Vixi! Com um causo desse nós num pode ficar por aqui, pode?</p>
<p>– Não pode, não. Dizia taxativo o velho homem com seu violão abaixo do braço esquerdo e o direito a segurar o cachimbo herdado de seu avô, para depois continuar o falatório: Um primo meu, lá das bandas de Sirigi, disse que viu numa noite dessas um bicho muito do estranho andando de duas patas tentando se passar por home pra querer entrar na igrejinha da cidade&#8230;</p>
<p>– Virge santa!</p>
<p>– Ave Maria! Continue seu Zé, faz favor, continue. Estava morta de curiosidade a das Dores, enquanto que a Zefina apenas ouvia com os olhos esbugalhados e um aperto no coração.</p>
<p>– O disgramado era esperto, continuou o velho empolgado, em vez de o endiabrado vir pelos lados do mercado e da praçinha como tudo que é gente faz, veio pelo lado duma ponte de pedra que lá tem, por cima do canal da cidade, como quem vinha de fora, lá da estrada de São Vicente&#8230;</p>
<p>– Aié, é? E veio mermo de São Vicente o disgramado?</p>
<p>– Que nada! Cês num ouviro o padre Antonio na missa de ontem não, foi? O bicho ruim é mentiroso e tinhoso demais pra ser sincero, ele engana! Teve gente que disse que o coisa ruim tinha vindo da rua da escola que fica por trás daquela igreja dos crentes e vai dar lá na cachoeira&#8230;</p>
<p>– Dever ser coisa dos crente!</p>
<p>– Que é isso muié? Tás doida é?</p>
<p>– Oxente! Ocê num ouviu o padre Antonio na semana passada, não? Ele disse que esses protestantes, crentes, tão com nada e tem parte com o demo! Só pensa em dinheiro e que a santa madre igreja pensa em tudo menos na avareza do dinheiro.</p>
<p>– É verdade, disse pensativa a Zefina que só prestava atenção e mais nada até agora.</p>
<p>– Pode ser, mais o fato é que o demo chegou até a porta da igreja que fica bem no meio da praça e disse a um fiel de nossa senhora que tinha ido buscar o Damião, e despois foi embora, se arredou de lá&#8230;</p>
<p>– Embora?</p>
<p>– Pra donde?</p>
<p>– Num se sabe. Ninguém sabe. Despois de dois dias, o Damião apareceu morto lá pras banda de Paudalho, tinha ido arresorver uns problema e de lá num saiu.</p>
<p>– Morreu de quê? Perguntara ofegante a das Dores.</p>
<p>– É, de quê? Imitara a Zefina.</p>
<p>– O delegado da região mandou o inquérito pro juiz dizendo que se tratava de ritual satânico.</p>
<p>– Ave nossa senhora de Lourdes, das Dores e de Fátima!</p>
<p>– Ave, Ave!</p>
<p>– Pois é muié, ocês tem ainda arguma dúvida de que é noite muito mardita essa?</p>
<p>Dá para se ver que elas estavam por muito convencidas do causo. Seu Zé, feliz por ter convencido esboçava um sorriso maroto de satisfação inconsciente, não sabia o porquê daquele sorriso, pois ele mesmo cria no que dissera, ao menos assim lhe parecia.</p>
<p>A lua subia ainda mais e tomava o céu, clareando cada vez mais a cor do brilho que a ela o sol emprestara. Os três cidadãos interioranos já não estavam mais tão à vontade com aquilo e os cachorros da vizinhança já começavam a latir sem parar e uivar.</p>
<p>– Zefina! Das Dores! Isso num é normá! Alertara o velho quase se borrando de medo e já de pé, pensando com muita precisão que qualquer movimento estranho que pudesse ocorrer do lado da mata, iria dar no pé e deixar as beatas pro demo.</p>
<p>De repente, ouvi-se um gemido na direção da mata. Do nada um grito!</p>
<p>– Jesus, Maria e José! Vamos embora bando de muié besta! É o demo!</p>
<p>Levantaram-se as duas senhoras num salto só e saíram a correr pela rua de pedra até chegar cada uma a sua porta, entrar e fechá-la com arroubos atrás de si. O seu Zé? Já estava em casa assim que alertara as damas. Aquele lá corria que era uma beleza, havia ganho vários campeonatos de corrida no colegial, e, quando jovem, passara por um longo sufoco para provar à comunidade que suas habilidades não eram sortilégios do demo. Por isso havia estudado muito tempo com o padre da região, para poder se defender na praça pública, desde então, em matéria de demonologia, qualquer um ia buscar sua ajuda para tentar assim desafogar a igreja nas horas do confessório.</p>
<p>A rua ficara deserta. Num silêncio sepulcral. Todos os que fora estavam entraram sem demora ao ouvir gritar o especialista, afinal, era sexta-feira treze, todos só haviam saído porque seu Zé também saíra, e se ele entrou, já era chegada a hora de todos entrarem&#8230;</p>
<p>É impressionante a crença. Seduz, faz crer e depois aprisiona, mas à vista de todos, só a verdade é o que existe, o resto, é conversa fiada!</p>
<p>Com poucos minutos do acontecido saía da mata o Pedro Lourenzo, que era uma espécie de Pedro Malazarte da região. O pobre saía com uma cara de alívio tão bom, tão impressionante, sentia-se como se tivesse ganho na loteria, embora não fosse esse o caso, estava alegre do mesmo jeito, é que depois de três semanas sem evacuar, por conta de seu problema de prisão de ventre, conseguira quando fora à mata à caça de passarinho desobstruir o intestino grosso! Mais tarde os moradores souberam que o gemido tinha sido no início da evacuação e o grito quando o trem lhe saiu dos fundilhos!</p>
<p>Que coisa aquela hein! Ainda dizem que nós somos a imagem e semelhança de Deus, nós os cagadores! Sim, por que qual é o ser humano que não evacua? Ora, que é isso! O papa evacua, a presidenta da república e também aquele professor arrogante da faculdade! Todos nós, unidos pela merda. Bem dissera o nobre Voltaire: “Tu, imagem de Deus, sentado em tua privada!”, talvez a mais provável verdade seja que Deus é que é a nossos olhos, inconscientemente, feito a nossa imagem e semelhança!</p>
<p>Todavia, o povo todo da região, seu Zé da viola, dona Zefina e a das Dores, não notaram esse lado do caso, não chegaram a cogitar isto o que aqui e cá entre nós cogitamos você, leitor atento, e eu. A conclusão que todos tomaram dentro de suas mentes não se sabe, mas com certeza não fora a mais viável possível. Mais tarde e numa noite parecida àquela, ouvia-se o seu Zé dizer que aquela prisão de ventre do Pedro Lourenzo e sua conseqüente dor de barriga e evacuação na mata era coisa muito estranha, era um causo do demo. Segundo ele, isso era mais claro que o dia. Aquele passarinho caro e bonito que havia levado o Pedro pra dentro das matas só podia ser mensageiro do demo, o que o bicho ruim queria mesmo era comer das merdas do Pedro, o que segundo um tal padre exorcista que passava pela região é normal e muito bom até para o demo, afinal de contas, ele, o demo, tentava ser melhor ao mesmo tempo em que tentava imitar O criador, tanto é que fora fazer tal coisa para imitar a ordenança de Deus a Ezequiel que teria que comer pão de cevada tostado junto a excrementos, ou seja, merdas, de homens, e tiradas na hora! Dissera o tal padre até o texto para quem tivesse dúvida: Ezequiel cap. 4!</p>
<p>Aquela explicação satisfizera a todos na região, menos ao Pedro que se sentiu de certo modo comido pelo demo. E foi assim que o acontecido muito bem explicado pelos fatores fisiológicos corporais, foi explicado, na preferência de todos como um causo do demo.</p>
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		<title>Lembrei de um lugar onde nos sentiríamos num deserto</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Sep 2011 15:48:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Raboni</dc:creator>
				<category><![CDATA[Histórias]]></category>

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		<description><![CDATA[Conto enviado por Bruno Fernandes Alves &#160; Uma das coisas que mais gosto no meu trabalho é a cara que a pessoa faz quando descobre o que vai acontecer com ela. Quando isso acontece, pelo menos o começo do meu dia está salvo. Dá para perceber a despedida surgindo, a incredulidade dando lugar à resignação, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Conto enviado por Bruno Fernandes Alves</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Uma das coisas que mais gosto no meu trabalho é a cara que a pessoa faz quando descobre o que vai acontecer com ela. Quando isso acontece, pelo menos o começo do meu dia está salvo. Dá para perceber a despedida surgindo, a incredulidade dando lugar à resignação, o grande vazio da perda se formando. Na maioria  das vezes é assim; claro que de vez em quando há desespero, tentativas de agressão e de fuga. Nem pisco nesses casos. Vou direto ao assunto e pronto.</p>
<p>Gosto mais dos que se resignam, batem um papo como se para ganhar um tempo, para tentar entender. Como agora. Os olhos castanhos claros parece que me fitam a uma eternidade; o lábio inferior treme suavemente; as lágrimas que começam a surgir nos olhos encontram o sol e criam aquele brilho estrelado, como nos filmes&#8230;só faltou aquele barulhinho&#8230;. “plim”! Apesar de não-dito, o “porquê?” é palpável.</p>
<p>Ele me pergunta se pode fazer um pedido. Claro que eu digo que sim. Me pede para que aconteça num local discreto, longe de todos. Então eu lembrei de um lugar onde nos sentiríamos num deserto. Ele agradeceu. O silêncio tomou conta da nossa partida.</p>
<p>Caminhamos devagar – mais um de seus pedidos, pois queria observar pela última vez a vida. De vez em quando, parava repentinamente. Eu seguia o seu olhar e lá estava: um baobá, imponente, sábio e velho. “Nunca tinha percebido como ele é bonito&#8230;”, sussurou. Outro olhar, outro lado. Um prédio antigo, estilo clássico, pintado com cores alegres por um desses projetos de revitalização urbana. “Veja só&#8230;agora não acho esse prédio tão museu assim&#8230;”, disse, um breve sorriso surgindo, para depois desaparecer.</p>
<p>Foi assim toda a caminhada.</p>
<p>Chegamos, sentamos lado a lado, mudos por alguns instantes.</p>
<p>É nessa hora que chegam os clichês: tanto ainda por fazer, se não tivesse dito aquilo à ela, se pudesse voltar no tempo&#8230;aí vem aquele olhar suplicando uma nova chance. Nem pisco. Minha distância incomoda, não digo nada, não mudo minha expressão, não sorrio, não choro. Apenas olho.</p>
<p>Quando começa o crepúsculo, vem o silêncio final. Sem estardalhaços, limpo, objetivo.</p>
<p>Pronto. Mas uma missão cumprida. Agora, tenho que ir, ainda há mais uma pessoa para hoje, segundo a informação que chega no meu smartphone.</p>
<p>Espero que venha mais uma cara engraçada para fechar o dia com chave de ouro.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Poeminha Lírico</title>
		<link>http://www.bienalpernambuco.com/poeminha-lirico</link>
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		<pubDate>Thu, 08 Sep 2011 15:45:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Raboni</dc:creator>
				<category><![CDATA[Histórias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.bienalpernambuco.com/?p=5243</guid>
		<description><![CDATA[Poema enviado por Fernando Farias Amanheceu e a lua ainda no céu. Gotas de orvalho Nas pétalas róseas Refletem os primeiros raios de sol. Há uma brisa de paz A energia do amor As flores sorriem Para um lindo arco-íris. No lago perene Brinca um beija flor Abanando as asinhas Fazendo ondinhas Na lamina de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Poema enviado por Fernando Farias</em></p>
<p style="padding-left: 30px;">Amanheceu e a lua ainda no céu.<br />
Gotas de orvalho<br />
Nas pétalas róseas<br />
Refletem os primeiros raios de sol.</p>
<p style="padding-left: 30px;">Há uma brisa de paz<br />
A energia do amor<br />
As flores sorriem<br />
Para um lindo arco-íris.</p>
<p style="padding-left: 30px;">No lago perene<br />
Brinca um beija flor<br />
Abanando as asinhas<br />
Fazendo ondinhas<br />
Na lamina de água</p>
<p style="padding-left: 30px;">O beija flor,<br />
Como um Narciso,<br />
Ver sua imagem refletida<br />
E brinca.<br />
Vendo suas cores cintilantes<br />
Vendo seus olhos e seu bico<br />
Vendo os dentes das piranhas<br />
Que saltam, agarram os pezinhos<br />
Puxam o beija flor para o fundo<br />
Escuro do lago.</p>
<p style="padding-left: 30px;">Atacam os olhos,<br />
Arrancam os olhos,<br />
Rasgam o papo do pobre animal,<br />
Que sacode o que resta das asinhas<br />
Que sangra<br />
Esperneia<br />
E morre<br />
Todo mordido<br />
Fudido<br />
Nas águas do Capibaribe<br />
Do Recife que fede<br />
Cheio de merda.</p>
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		<title>Nordeste, história, resistência e luta</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Sep 2011 01:11:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Raboni</dc:creator>
				<category><![CDATA[Histórias]]></category>

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		<description><![CDATA[poema enviado por Claudivan Lopes de Souza Companheiros prestem atenção, Na história que eu vou contar. Nela narro à resistência, De povos que ao lutar, Combateram as injustiças, Perdendo até suas vidas, Sem nunca se entregar. Pra começar minha história, De Palmares vou falar. Onde Zumbi e seus guerreiros, Tiveram que enfrentar, Um verdadeiro exército, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>poema enviado por Claudivan Lopes de Souza</em></p>
<p style="padding-left: 30px;">Companheiros prestem atenção,<br />
Na história que eu vou contar.<br />
Nela narro à resistência,<br />
De povos que ao lutar,<br />
Combateram as injustiças,<br />
Perdendo até suas vidas,<br />
Sem nunca se entregar.</p>
<p style="padding-left: 30px;">Pra começar minha história,<br />
De Palmares vou falar.<br />
Onde Zumbi e seus guerreiros,<br />
Tiveram que enfrentar,<br />
Um verdadeiro exército,<br />
A crueldade de Jorge Velho,<br />
Pra escravidão não voltar!</p>
<p style="padding-left: 30px;">De canudos me refiro,<br />
Em minha história a seguir.<br />
Onde os pobres resolveram,<br />
Ao Conselheiro seguir.<br />
E defenderam este arraial<br />
Combatendo todo mal,<br />
Sem medo de sucumbir.</p>
<p style="padding-left: 30px;">Ainda falo do Nordeste,<br />
Lugar de seca e exploração.<br />
Onde por justiça os cabras,<br />
Do rei do Cangaço Lampião.<br />
Lutaram até morrer,<br />
Desafiando o poder,<br />
Dos coronéis do sertão!</p>
<p style="padding-left: 30px;">E a história continua,<br />
Com o povo a se organizar.<br />
Lutando por seus direitos,<br />
Para a vida melhorar.<br />
Com garra força e união,<br />
Resistindo a opressão,<br />
Sem nunca desanimar!</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Sublime</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Sep 2011 01:07:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Raboni</dc:creator>
				<category><![CDATA[Histórias]]></category>

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		<description><![CDATA[Poema enviado por Andrew D&#8217;Accorsi &#160; Sublime, assim como as lágrimas tornam-se vinho Como o chão é varrido pelas memórias Como os anjos se entristecem No sereno da noite Eu vejo as pétalas murcharem E as raízes rastejam no vaso Os ponteiros caindo atrasados O vidro refletindo tudo isso E um pouco mais Eu vejo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Poema enviado por Andrew D&#8217;Accorsi</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="padding-left: 30px;">Sublime, assim como as lágrimas tornam-se vinho<br />
Como o chão é varrido pelas memórias<br />
Como os anjos se entristecem<br />
No sereno da noite</p>
<p style="padding-left: 30px;">Eu vejo as pétalas murcharem<br />
E as raízes rastejam no vaso<br />
Os ponteiros caindo atrasados<br />
O vidro refletindo tudo isso<br />
E um pouco mais<br />
Eu vejo o céu tão límpido como a água<br />
E sinto o ar escapando dos pulmões abafados pelas mágoas</p>
<p style="padding-left: 30px;">Sublime, a chuva cai<br />
Para me abraçar junto com a escuridão<br />
E percebo, os olhares frígidos<br />
De quem não esteve aqui<br />
Pelo ralo a água leva<br />
As lembranças que nunca existiram</p>
<p style="padding-left: 30px;">Sublime, a chuva para<br />
Calma antes da tempestade<br />
E o arco-íris notívago<br />
Atravessado pela luz agora<br />
Reflete-se no meu prisma obscuro</p>
<p style="padding-left: 30px;">Eu vejo as pétalas murcharem<br />
E as raízes rastejam no vaso<br />
Os ponteiros caindo atrasados<br />
O vidro refletindo tudo isso<br />
E um pouco mais<br />
Eu vejo o céu tão límpido como a água<br />
E sinto o ar escapando dos pulmões abafados pelas mágoas</p>
<p style="padding-left: 30px;">Eu devo me apressar<br />
Para fechar as portas de baixo<br />
A lua canta para mim a agonia<br />
Enquanto as teias das aranhas<br />
Dão-me imagens silenciosas de horror</p>
<p style="padding-left: 30px;">Milagres são farseiros<br />
Assim como a esperança<br />
Realmente só deixa a esperar</p>
<p style="padding-left: 30px;">Eu vejo as pétalas murcharem<br />
E as raízes rastejam no vaso<br />
Os ponteiros caindo atrasados<br />
O vidro refletindo tudo isso<br />
E um pouco mais<br />
Eu vejo o céu tão límpido como a água<br />
E sinto o ar escapando dos pulmões abafados pelas mágoas</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Maria</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Sep 2011 00:58:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Raboni</dc:creator>
				<category><![CDATA[Blog do Bienaldo]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias]]></category>

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		<description><![CDATA[Conto enviado por Mabel Amorim &#160; - Qual o seu nome? - Maria. - Maria de quê? - Maria, só Maria. Até isso a sorte lhe negara. Nascer só Maria, sem mais nada a lhe acompanhar. Poderia ter vindo das Graças, quem sabe lhe abençoasse, ou ainda de Fátima, das Neves, da Anunciação, até Maria [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Conto enviado por Mabel Amorim</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>- Qual o seu nome?<br />
- Maria.<br />
- Maria de quê?<br />
- Maria, só Maria.</p>
<p>Até isso a sorte lhe negara. Nascer só Maria, sem mais nada a lhe acompanhar. Poderia ter vindo das Graças, quem sabe lhe abençoasse, ou ainda de Fátima, das Neves, da Anunciação, até Maria José ela aceitaria de bom grado, apesar de não gostar da ideia de nome de Homem junto com nome de mulher. Só não queria Maria das Dores, porque se tinha algo demais na sua vida eram dores, de todo tipo e intensidade.</p>
<p>Desde que se lembrava que era gente, embora às vezes chegasse a duvidar que fosse mesmo, ela conhecia algum tipo de dor.</p>
<p>Dor da perda do pai, quando, há dez anos, ele partiu para trabalhar na capital e morreu atropelado na rua em frente à rodoviária, no mesmo dia em que desembarcou por lá. Ia talvez com a cabeça cheia de sonhos e não percebeu o carro que se aproximou velozmente e o arrebatou de seus pensamentos quando ele atravessava a rua em passos lentos, o olhar perdido em planos do que compraria com o parco salário que iria receber.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span id="more-5169"></span></p>
<p>Dor pela dor da mãe, que ficou sozinha com seis filhos pequenos, sendo ela, Maria, a mais velha, embora esse título parecesse uma ironia diante dos seus oito anos recém completados e sua silhueta franzina.</p>
<p>Dor da fome, do desespero, da humilhação, do desengano, da solidão. Todas as dores Maria já sentiu, ou melhor, quase todas. Faltava a dor do parto mas essa ela já começara a sentir desde a noite passada, quando a barriga já tão esticada, parecia querer rasgar-se para trazer ao mundo aquela criança.</p>
<p>- Endereço? – a atendente do hospital perguntava sem sequer tirar os olhos do papel à sua frente.<br />
- Sítio das Flores.<br />
- Onde fica?<br />
- São José da Mata.<br />
- Nome do pai?<br />
- Sei não senhora.</p>
<p>Foi a única vez em que a atendente levantou a vista para olhá-la mas não passou de alguns segundos.</p>
<p>Ela não estava mentindo, não sabia mesmo o nome do infeliz que lhe engravidara mas não porque ela fosse dessas que vivem fazendo essas coisas por aí. Na pobreza quase miserável da casinha, a mãe e os irmãos ocupavam-lhe todo o seu tempo e sua energia, não tinha amigas. Ela era virgem, nunca tinha tido um namorado nem mesmo dado um beijo em ninguém. Pra falar a verdade, nem sabia direito o que era um simples beijo no rosto. A sua vida sofrida não resguardara momentos de carinho e afeto entre os tantos irmãos. Era uma verdadeira competição, uma disputa diária por mais um dia de vida, mesmo ela sendo tão desgraçada.</p>
<p>Mas um dia apareceu por aquelas bandas um rapaz bonito, entregando umas compras feitas no armazém do seu Joca. Ele parecia ter uns vinte anos, estava numa moto, parou para pedir informações e achou simpática aquela garota tão novinha mas com olhos tão profundos, como se pudesse abarcar o mundo com eles.</p>
<p>Deu-lhe um sorriso e agradeceu-lhe a informação. Saiu, deixando para trás um jovem coração estremecido, violado na sua inocência, desperto pelo calor da puberdade que queimava-lhe o peito.</p>
<p>Depois daquele dia, uma vez ou outra, o rapaz passava de moto pela frente do sítio, devagar, olhando com a esperança de revê-la, e por mais de uma vez a viu desdobrando-se em cuidados com os irmãos pequenos, arrancando mato do pequeno e seco roçado, ou simplesmente sentada no batente da porta, com o olhar jogado ao léu.</p>
<p>Numa dessas vezes ele decidiu parar. Buzinou. Ela olhou-o intrigada e foi até ele. Mal falaram-se. Ele perguntou se ela queria dar uma volta. Ela olhou em volta e depois assentiu. Subiu na moto meio sem jeito e pôs os braços em volta dele, sentindo o contato queimar sua pele e incendiar seu peito.</p>
<p>Ele deu a partida e foram em frente. Ela experimentava uma sensação estranha, como se fosse uma folha solta na brisa da tarde e começou a rir. Ele achou graça de sua alegria e riu também. Os dois seguiram rindo e divertindo-se um com o outro, até que ele parou em uma campina afastada.</p>
<p>Desceram da moto e sentaram-se no chão. Ele não tinha mais que alguns biscoitos mas dividiu com ela. Enquanto ela comia ele ficou a observá-la. O vento soprava de leve o seu cabelo ondulado e uma mecha insistiu em pousar no seu rosto. Ele afastou-a com a ponta dos dedos. Ela estremeceu. Olhou-o nos olhos e o que viu ali a surpreendeu. Não sabia se tinha medo ou se gritava de alegria, sabia apenas que era intenso o suficiente para deixá-la sem fôlego.</p>
<p>Ele tomou seu rosto entre as mãos e beijou-a. A princípio ela não sabia o que fazer mas a natureza sabiamente a conduziu. Entregue aos carinhos do rapaz, ela não imaginou outra maneira de se sentir tão querida, tão desejada.</p>
<p>Aquilo acontecera outras vezes, sempre assim, chegavam silenciosos e se amavam, depois iam embora, sem conversa. Até que um dia a mãe a achou com a barriga um pouco inchada e, desconfiada, passou a vigiá-la até descobrir os encontros.</p>
<p>O rapaz pediu demissão do armazém e desapareceu no mundo. Ela ficou sozinha, largada num canto da casa a ouvir as lamúrias da mãe de que não bastava ter seis bocas para alimentar e já lhe trariam mais uma.</p>
<p>Ela fazia o que podia para ajudar na casa mas a miséria era grande. Quando a barriga começou a atrapalhar os afazeres, passou a sentir-se realmente um estorvo.</p>
<p>Ontem começou a sentir as dores do parto. Conseguiu uma carona e foi sozinha para a maternidade pública de Campina Grande. Nem falou com a mãe e nem deixou bilhete, até porque não sabia ler nem escrever.</p>
<p>- Fez o pré natal?<br />
- Fez o quê? Natal? Não, num foi no Natal.<br />
- Perguntei se foi a algum médico para acompanhar a gravidez, se fez algum exame.<br />
- Fui não, senhora, nem fiz exame de nada não.</p>
<p>A atendente suspirou, sacudindo a cabeça para os lados. Mais uma, pensou.<br />
Separou os papeis e passou para a assistente social.</p>
<p>A dor apertou mais. Ela gemeu baixinho, como quem teme incomodar o outro com seu próprio sofrimento.</p>
<p>A assistente social apareceu, olhou a ficha e chamou-a para uma sala.<br />
- É verdade o que você disse na entrevista?<br />
- É, sim senhora.<br />
- Tem certeza disso? Talvez se arrependa.</p>
<p>Ela gemeu mais alto, quase um uivo.</p>
<p>- Vou encaminhá-la à sala de pré-parto. Quando a criança nascer voltaremos a conversar.</p>
<p>Maria foi levada para uma sala onde havia outras mulheres aguardando a sua hora. Se a dor do parto era a única que ela ainda não conhecia bem, então tiveram toda uma noite para estreitarem laços. Apenas no início da manhã seguinte ela foi encaminhada para a sala de parto.</p>
<p>Estava sozinha, doída, machucada e ainda tinha que fazer força para que aquela criança pudesse vir ao mundo. Entre contrações, gritos e choro, o bebê nasceu.</p>
<p>Ela fechou os olhos assim que ouviu o choro da criança.</p>
<p>- Eu num quero vê o neném.<br />
- Nem quer saber se é menino ou menina?<br />
- Num precisa, num quero.<br />
- Que mulher sem coração. – sussurrou a enfermeira para a médica.</p>
<p>Maria apertava os olhos com tanta força que eles doíam. Não queria ver o bebê, nem mesmo saber o sexo. Temia passar o resto da vida procurando um menino ou uma menina nos rostos de todas as crianças que encontrasse. Temia sonhar com ele. Alguém a chamando de mãe e cobrando-lhe todas as coisas bonitas que uma criança deve ter e que ela nunca poderia lhe dar.</p>
<p>Virou o rosto e chorou em silêncio, sentindo em seu peito uma dor diferente das que já conhecia, uma mistura de saudade e desgosto por um futuro que não podia lhe pertencer simplesmente porque o passado já o havia condenado e o presente se calara.</p>
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