Conto enviado por Amaro França
“Só se vê bem com o coração.”
Antoine de Saint-Exupéry
Em minhas andanças, pelo semi-árido nordestino – Região do Seridó – tive a oportunidade de conhecer uma comunidade no interior do RN próxima a cidade de Caicó e, algo do cotidiano daquele povoado me chamou a atenção.
Conheci uma senhora com idade avançada com o nome de “Dona Mariquinha” assim era chamada, querida pela comunidade e também bastante conhecida na região por ser uma artesã que produzia lindas colchas de retalhos*.
Enquanto Dona Mariquinha pacientemente cortava os tamanhos de cada resto de tecido, e depois seguia costurando parte por parte, ia também conversando sobre a vida.
Contou-me que havia aprendido aquela arte desde pequena com a sua mãe. Ainda quando criança, D. Mariquinha já fazia as “colchas” para a cama das suas bonecas.
Com o tempo, foi aperfeiçoando na arte e, embora as colchas não lhe rendessem tanto dinheiro, foi uma fonte de renda para o seu sustento e posteriormente para o da própria família.
Nesse nosso encontro, pude observar que cada detalhe da costura era feito com muito carinho. Ela não deixava fiapos, linhas soltas e também não deixava que o tecido ficasse repuxando os outros… Era um grande zelo em seu trabalho, sua arte.
Percebi também em alguns momentos quanto ao retalho que não ficasse bem costurado “harmonioso”, Dona Mariquinha “descosturava-o” reaproveitando-o em outro lugar e só em último caso, descartava-o para uma futura colcha. O importante é que nenhum retalho se perdia.
De vez em quando, a artesã levantava da sua cadeira de trabalho e estendia sobre a cama a “futura colcha de retalhos”. Daí, afastava-se um pouco, olhava do lado, olhava do outro, pegava a cadeira onde estivera sentada e subia nela com certa dificuldade.
Do alto, observava com atenção sem dizer uma palavra. Às vezes descia, ajustava a colcha num ponto ou noutro, voltando ao ponto estratégico de observação.
Curioso eu lhe perguntei: – “Dona Mariquinha todos esses movimentos são necessários para ser produzida uma bela colcha de retalhos?”
Respondeu-me carinhosamente: -“Meu filho, para algumas pessoas que não dão importância a vida, não, mas, para quem tem cuidado com ela, sim.”
Sem entender bem a resposta, pedi para que me explicasse um pouco.
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