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Histórias

  • out
  • 10
  • 2009

A crônica da vida moderna

Categorias: Histórias

História de Anderson Silva

Ao amanhecer em que a normalidade flui e resplandece com o raiar do sol, agradecemos a Deus por permanecer em vida.
Com o despertar do dia, enfrentaremos nossa primeira batalha. Nessa em que já se transformou em um duelo Templário, onde não haverá vencedor e nem perdedor, mas sim há de fortificar e enfraquecer ambas as partes, pois esse duelo não haverá fim enquanto vida.
Então nos debruçamos com o recital caótico e enfático do modernismo, nele regido por um maestro perfeito e cruel, onde rege seus músicos que soam seus graves e agudos, compondo a mais doce sinfonia infernista dos homens e para incrementar o show, os efeitos luminosos nos causa desespero, aliado as primeiras e segundas, sincronizando um espetáculo atormentador. Uns mártires a ser enfrentado com cautela e muita parcimônia.
O cotidiano exala pelos poros, ditando o compasso e à fluência da vida. A periódica fuga da vida pessoal para profissional que também está inserida sua dose cavalar da problemática mundana, que extrapola os limites entre o arterial e venoso. Depois de encharcar a roupa sentimos mais aliviado com o término do ciclo diário e voltamos ao seio da vida familiar. O inimigo não satisfeito com a primeira batalha volta a soar sua sinfonia de maneira mais energética, como num último suspiro de vida, só que agora tem um aliado forte que luta a seu lado que se chama cansaço. Por natureza humana o individuo busca forças onde não existe, e enfim conquista mais uma gloria.
Então cai sobre si a calmaria tão desejada e merecida, sentindo-se o melhor e maior dos guerreiros por tudo vivenciado. Repousando seu corpo e mente em seu leito o guerreiro restabelece suas forças. Com o calar da noite a paz enfim brota no individuo, mas a espreita está o pior de todos vilões; o mais cruel, impiedoso e sorrateiro. No qual se utiliza de artifícios surreais poderosos, onde o vilão se oculta deixando o guerreiro travar uma batalha psicodélica, em que o limiar da loucura tenta tomar posse do seu mundo real. Muitos não sobrevivem a esse periodismo, mas quem remanesce a batalha, a luta nunca termina. Como se tudo fosse um “pago conta”* pela inserção do modernismo humano.

  • out
  • 10
  • 2009

Repouso

Categorias: Histórias

História de PATRÍCIA DINIZ SANTOS

Havia ultrapassado os 90 anos e há pouco tinha perdido a consciência dos seus atos. Quando chegou ao lar para idosos, os lapsos de memória eram mais espaçados. No primeiro dia relutou e chorou, pedia assustada para alguém levá-la de volta e ficava esperando o filho voltar. Esperou um, dois dias, depois calou e baixou o olhar. Não se sabe ao certo se foi uma forma de protesto, por ter sido deixada pelo filho num lugar como aquele.
Havia muita organização e dedicação naquela casa de repouso, era um local arborizado, no qual primavam pela higiene. Em cada quarto eram acomodadas apenas duas idosas. Coisa não muito comum em instituições como aquela. Mas para ela era inaceitável.
Lá estava eu ao seu lado. Esforçava-me para interagir e conseguir alguma resposta inteligível. Mas ela, olhar espantado, apenas repetia:
- Só o Senhor é Deus.
É estranho acompanhar os estágios da vida e ver que estamos todos indefesos diante da velhice, ou terceira idade. A denominação não diminui toda a angústia que a idade avançada nos trás.
O rosto mostrava um olhar amargo, às vezes atônito. A postura, curva e os pés vacilantes. A velha senhora resolveu fechar-se. Repetia apenas a mesma frase.
O filho amado, preferido entre seis, era o que mais dependia da velha senhora. Viúva ainda jovem, percorreu uma longa trilha de percalços e de trabalhos ambulantes até conseguir aposentar-se como trabalhadora rural. Viu os filhos casarem e teve de enterrar três deles na idade adulta. Resignava-se e continuava a viver sozinha, tendo por momentos a visita dos familiares.
Não era fácil travar um diálogo com a viúva entristecida e amarga. Por vezes era sarcástica. Parecia ter prazer em depreciar a conquista de alguns que a procuravam para dividir os momentos de vitória. Não sei se era o modo de estimular as pessoas queridas a não se acomodarem ou se era vingança pela vida que tivera.
O fato é que ninguém era digno de merecer o seu afeto. O que restou de amor da senhora tão sofrida era dedicado apenas àquele filho. Não era mais bonito, nem mais educado, tampouco esforçado que os outros. Mas era o escolhido e sabia tirar proveito disso.
Suas visitas tinham data certa: dia do recebimento da pensão. E a velha senhora que doava seu coração apenas àquele filho não considerava a hipótese de dizer um não. Aos outros era fácil e até rotineiro, mas para ele não.
Morava sozinha, até que um dia esqueceu a chaleira no fogo e cochilou. Por pouco não houve uma tragédia. Os familiares, preocupados, se apressaram em decidir o futuro dela. Foi morar com o filho querido, que fez de tudo para ter a companhia de tão devotada e generosa mãe.
Mas, aos poucos, ele foi demonstrando sinais de insatisfação. Eram os lapsos de memória que o deixava em situações difíceis. Às vezes ela se comportava como criança birrenta, coisa corriqueira naquela idade. Então um dia ele decidiu, para o bem de todos (principalmente o dele), deixar a mãe aos cuidados de um lar para idosos.
Foi lá que a vi perder o viço e a vontade de falar. Tentava animá-la comentando travessuras de suas colegas de repouso, ou relembrando fatos pitorescos do seu passado. Mas ela não sabia mais do meu nome, ou do elo de parentesco. Nem ao ver fotos de família esboçou alguma reação.
Cerca de um mês depois recebi o telefonema: ela havia sofrido um acidente vascular cerebral. Fui chamada às pressas, já que o filho, apesar de morar a poucos metros do local, não pôde ou não quis comparecer.
Acompanhei de perto o seu sofrimento durante uma semana de internação no hospital. No segundo dia, ela segurou forte o meu braço e chamou baixinho o nome do filho. Mantive contatos tentando sensibilizá-lo de que a idosa ansiava pela sua presença. Recebi de volta promessas.
No sétimo dia, cheguei após o horário da visita. Senti uma grande angústia e precisava vê-la. Fiquei feliz quando soube de sua aparente melhora. Perguntei à enfermeira se a tão aguardada visita havia cumprido o seu dever. Sem sucesso. Ele não veio.
Beijei a testa da enferma e voltei para casa revoltada. Como pode haver tanta indiferença e desprezo depois de anos de dedicação? Logo cedo, num domingo, recebi a notícia: ela havia cansado de aguardar. Descansou.
As homenagens póstumas vieram, já sem tempo. Todos compareceram à despedida e uma forte chuva caiu sobre os presentes. Ela se foi como quem se despede com fúria e sabedoria. A chuva foi o seu pranto, ela desejou estar só também naquele momento.

  • out
  • 09
  • 2009

Sombra

Categorias: Histórias

História de joão cavalcanti ribeiro junior

Telha em luz
desperta vidas em sonhos
ofuscas paredes.

  • out
  • 09
  • 2009

A Missa

Categorias: Histórias

História de Rodolfo Bourbon

A missa é bastante concorrida. Mesmo assim, Onofréia dos Santos Silva, 78 anos, sempre consegue lugar à frente. Nem precisa chegar mais cedo para atingir o feitio. Com o xale de renda azul, o terço na mão e o pensamento no ex-marido, ela entoa cânticos no ritmo certo e sem errar qualquer palavra. Apesar do alto (estridente) e bom (desafinado) som, ninguém ao lado se incomoda. A idosa sorri para todos. Poucos retribuem – inclusive a “bruxa velha” da Gersina. Onofréia está sempre competindo com Gersina. A disputa para ver quem canta mais, quem demonstra mais devoção aos santos, quem comparece mais às celebrações, quem conhece o maior número de salmos e quem responde mais rápido às lacunas deixadas pelo padre.

Padre: Jesus, filho de Deus. Derramas teu amor sobre a Terra.
Gersina: Seeeenhoooor, fazeeeei-me instrumeeeeento de voooooossa paaaaaaz.
Onofréia: Seeeeenhooor, fazeeeei-me instrumeeeeento de voooooossa paz! (olhando para o lado)

Padre: Oh! Pai. Bendito és entre os homens.
Gersina: Ele estááááá no meeeeeio de nóóóóóós.
Onofréia: Ele estááááá no meeeeeio de nós! (olhando para o lado)

Padre: Protegei-nos contra os males que…
Gersina: (silêncio)
Onofréia: Amém! (olhando para o lado, com os punhos cerrados e o sorriso no canto da boca)

Ninguém esboça reação e o padre segue. Todo dia santo e todo santo dia, a história se repete. Xale azul, terço, cânticos, sorrisos e vitória. Satisfação que não acompanha a idosa fora da igreja. A rotina de Onofréia é solitária. Marido supostamente falecido, filhos e netos bastardos que não a procuram há anos, amigos distantes e plantas murchas. Até o dono da mercearia da qual a idosa é a mais antiga freguesa encara-a com desdém. Onofréia teme que o comportamento efusivo nas missas tenha provocado o afastamento e o saco cheio das pessoas. “Mas eu gosto de ser cordeira de Deus, ué?”, pensa. “O que faço Haroldo?”, indaga, observando o retrato do companheiro que se foi. “Volta, Haroldo!”. Ele não volta.

O tempo passa. Sabe a melancolia de uma reflexão sobre a brevidade da vida ao crepúsculo das 17h45? Pois, no dia-a-dia de Onofréia, tudo é pôr-do-sol. A saúde vai bem e dinheiro não falta. Faltam companhias – aporta o navio do saudosismo. Faltam sorrisos – transborda o mar de lágrimas. Faltam cores – tudo é cinza(s). Falta ar – atraca a clausura. As amarras do destino dilaceram seu corpo. Quer correr – faltam pernas. Quer gritar – falta voz. Quer rezar – por quem? Já sabe. Quer reencontrar Haroldo.

Onofréia coloca no papel todas as possibilidades. Reza. Ele não volta. Então, sai à procura. No bar da esquina, ele não está. Pergunta ao dono, mas não recebe resposta. No hospital do bairro, não há nenhum Haroldo na lista de pacientes. Banco, clube de xadrez, casa do Jaime. Ninguém sabe, ninguém viu. Marca “x” em todas as opções. Na última vez em que recorda ter visto o ex-marido, ele tinha ido comprar cigarro. Como fumaça, desapareceu. “Espere aí… já sei! Cemitério”.

De tumba em tumba, verifica o nome do ex-marido. Receia em achar um epitáfio com os dizeres Haroldo Ramos Bezerra – Deixou, apenas, filhos e netos. Mas quer cessar a ansiedade sobre a ausência de paradeiro. Repentinamente, o inesperado. Lá está Haroldo, em carne e osso. Sorri, chora, grita, silencia – quase desmaia.

Onofréia: Por Deus do Céu, Haroldo! Onde você estava?
Haroldo: Ai, ai, Onofréia. Saudades de você.

Onofréia: Oh! Meu amor. Que bom te rever. Minha vida tem sido tão solitária.
Haroldo: Minha vida tem sido tão solitária.

Onofréia: Ainda bem que voltaremos a construir nossas vidas.
Haroldo: Queria ter você de volta.

Onofréia: Queria? Por que queria? Eu quero ter você de volta.
Haroldo: Queria ter você de volta. (suspiros)

Haroldo se afasta. É então que surgem os calafrios. Onofréia dos Santos Silva – Deixou marido, filhos e netos. “Meu túmulo?!”, desespera-se. As respostas couberam em um filme de 30 segundos. Esposo sai para comprar cigarro. O infarto atinge seu coração. Ninguém para socorrer. Paredes brancas. Homens com máscara. Escuridão. Missa. Solidão.

Onofréia chora. Quer a morte. Mas já está morta. Desiste. Levanta a cabeça e se dirige à concorrida missa. Como de costume, consegue lugar à frente. Com o xale de renda azul, o terço na mão e o pensamento no ex-marido, ela entoa cânticos no ritmo certo e sem errar qualquer palavra…

  • out
  • 09
  • 2009

Taj Mahal

Categorias: Histórias

História de Rodolfo Bourbon

É noite. Passa das 23h. O frio invade a casa de Anabella. Ela sente um arrepio. Como se algo em sua vida tivesse desmoronado. Desvia o mau pensamento com a mão direita. Levanta-se e caminha até o quarto da filha. Conforta a pequena Amanda, 11 anos, com lençol e afagos. Apaga a luz. Quando está prestes a retornar para a cama, o pedido.

- Mãe. Acende, por favor.
- Claro, meu anjo.
- Mãe. Conta uma historinha.

Apesar de não repetir o carinhoso “claro, meu anjo”, a mãe cede. Como o sono e a baixa temperatura exauriram boa parte da costumeira criatividade, Anabella – casada, 35 anos, arqueóloga – opta por um livro. Vai na sala de leitura e escolhe o mais repleto de fotos. Na capa, letras douradas e cintilantes. “Taj Mahal”.

- Acho que ela vai gostar.

“Era uma vez um rapaz chamado Kurram. Ele despendia tardes caminhando pelo parque do palácio situado nas redondezas de onde morava. Falava pouco. Preferia aguçar o sentido da visão. Certo dia, cruzou o mesmo caminho de uma jovem de 15 anos. Os olhos, repentinamente, ficaram embaçados. As pernas fraquejaram. As palavras custaram a sair da boca. Não disse nada além de um پذیرفته شده (algo como um ‘olá, senhorita’, em persa). A moça retribuiu com um sorriso. Não sabia ela que, a partir daquele instante, o destino os unia para a eternidade…”

- Mãe. O que é aguçar?

“… o destino os unia para a eternidade. Mas iria demorar um pouco para o desenrolar de atos e fatos. Cinco anos, para ser mais exato, sem se verem uma única vez. No ano de 1612, o reencontro. Natural como a declaração mútua de amor. A cerimônia de casamento foi simples. Dezesseis anos depois, Kurram abandonou o nome e se transformou no Príncipe Shah Jahan, o ‘Rei do Mundo’. A esposa virou Mumtaz Mahalou, a ‘Eleita do Palácio’…”

- Mãe. Quero água.

“… a ‘Eleita do Palácio’. Mumtaz, no entanto, não foi rainha por muito tempo. Morreu, aos 39 anos, ao dar à luz ao 14° filho de Shah Jahan. O príncipe ficou inconsolável. Como antigamente, emudeceu. Não houve mais música, festa ou celebração no reino. O ‘monarca do mundo’ ordenou a construção de um monumento na sede real, localizada na cidade de Agra, na Índia. Não qualquer monumento. Queria um monumento de ode ao amor, para representar toda a eloqüência do sentimento. Mármore fino e branco das pedreiras locais. Turquesa do Tibet. Lapis Lazulis do Afeganistão. Safiras do Ceilão. Quartzo dos Himalaias. Jade da China. Ágatas do Yemen. Corais da Arábia Saudita. Âmbar do Oceano Índico. Ametistas da Pérsia…”

- Mãe. Se o papai morresse, você também iria construir algo tão lindo assim?

(Silêncio)

- Claro, meu anjo. Mas eu iria construir o monumento no meu coração para ele poder visitar a qualquer momento. Vou buscar o copo d’água.
- Deixa a porta aberta.

(Risos)

O relógio, silencioso, marca 0h15. O telefone, desesperado, toca.

- Quem pode ser, a esta hora da noite?

Anabella atende. Subitamente, cai ao chão. A notícia de que o marido sofreu um acidente fatal de trânsito, uma hora atrás, causou o desmaio. Ela redobra os esforços e se levanta. Tem uma missão para cumprir. Volta ao quarto da filha e continua a narrativa.

“… Ametistas da Pérsia. Nasceu, então, a maravilha do mundo chamada Taj Mahal. O monumento flutua. Documenta a mesma irrealidade da cor branca. Que não é real, não pesa e não é sólida. Falso abaixo do sol. Falso na claridade da lua. Parece a encarnação de todas as coisas puras, sagradas e infelizes. O Taj Mahal é uma lágrima no limiar dos tempos. Ponto final.”

Anabella não notou, mas Amanda já estava dormindo. Vai ao armário e retira um vestido branco. Apruma-o sobre a pele. Enfarta-se de reluzentes jóias. Dança. Ou melhor, flutua em cima da cama. Deixa uma lágrima escorrer do olho. Aguarda, com ansiedade, a visita do marido.

  • out
  • 09
  • 2009

A Natureza e a Humanidade

Categorias: Histórias

História de Alexandrus

Ah maltratada Natureza!
És uma dádiva divina,
Portadora de tanta beleza,
Que a todos fascina.

Agora estás sofrendo tanto!
Pois foste bastante poluída.
Perdes a cada dia teu encanto.
Oh! Tens uma vida assaz sofrida!

Quem te flagela assim?
Certamente a ganância humuna,
Que não percebe a iminência do fim.

  • out
  • 09
  • 2009

Uma certa Emanuela

Categorias: Histórias

História de Emanuela Santana

O que dizer de Emanuela
Que é uma amiga sincera?
Que aos meus olhos é bela?
Só isso não é suficiente.
Importa dizer de seus sonhos, medos e conversas
Sem papas na língua, nem falsos moralismos
Diz o que der na telha, briga se for preciso.
O que lhe falta em altura, sobra em altivez
E tudo que lhe chega à mão
Sempre está pronta pra fazer
É assim que e ela, Emanuela.

Tão segura em alguns aspectos
Desamparada em outros
Se vê num corpo de mulher,
Uma menina em fé, que
Esquece quão grande ela é
Quão grande é seu Deus
E o quanto lhe dá proteção
Essa é Emanuela,
Sua vida merece uma novela.

Desde sempre sonhadora
Viveu uma realidade difícil
Brincou com poucas bonecas
Passou muitos sacrifícios
Sofreu ilusões
Teve amores perdidos
E um dia perdeu o chão
Gerou um bebê e ainda assim,
Acompanhou-a
A solidão…
Viu-se na estrada sem rumo
Sem teto e sem pão
Eita vida dura!
Emanuela, emanuela…

Em uma esquina da vida
A identidade: Karelly, ela encontrou
Esteve em avenidas
E seu corpo emprestou
Nesse percurso nada fácil
Conheceu pessoas, ouviu histórias
E aqueles dias ficaram pra sempre gravados
Em sua memória
Mas não era como Karelly
Que queria ficar
Vivia procurando, ansiava encontrar
Encontrar-se consigo mesma
E o destino ia lhe ajudar
Emanuela, aonde vais te achar?

A avenida lhe apresentou
Um certo Aron que lhe olhou
Com carinho e ternura
E com amor lhe chamou
Para um futuro diferente
E ela prontamente aceitou
Novos rumos se apresentaram
Sua aura volta a brilhar
E Emanuela recebe de presente
Uma Laura que pra sempre vai amar
Emanuela percebes o quanto estás a andar?

Como nada é por acaso
A Psicologia ela escolheu
Pois inconscientemente sabia
Que precisava trabalhar seu eu
Encontrou dificuldades
Deparou-se com outras leituras
Freud, Lacan, Rorty, Vygostsky
Mostram-lhes infinidades
E a cada dia ela cresce
Embora para o passado ainda
Esteja tentada a olhar,
Não se percebe confiante
Às vezes quer desistir
Jogar tudo pro alto,
Pois tem medo de ser feliz
Emanuela, quando vais reconhecer
A força que há em ti?

Com beijos e admiração
Eu brindo à nossa amizade
Felicito nossas diferenças
Amo-te sem resistências
Sou grata pela tolerância recíproca
Pela sinceridade que nos invade
Pela oportunidade de dizer
Conte comigo por toda a eternidade…
Obrigada por me amar,
Comigo sempre poderás contar.

Não sou hipócrita
Também fico triste
Quando algumas de suas posturas
Me são incompreensíveis
Mas aprendi que sempre devo abrir o jogo
Que sempre vamos nos escutar
Que a “empática” se fará presente
Para que a diferença de tempos
Possamos aceitar.

Emanuela, Emanuela,
Amo-te sem reservas
Desejo-te todo o bem desse mundo,
Um grande amor-próprio e com outros
Muita saúde, felicidade e festas
E que sobre ti sobrevoem borboletas
De todos os tamanhos e cores
Para que guiem seus passos
Sempre, pelo caminho das flores.

Emanuela, para ti abrem-se todas as janelas…

  • out
  • 09
  • 2009

Tu

Categorias: Histórias

História de LUCIANA DE SANTANA FERNANDES

Tu, somente tu
És minha dor
Minha alegria
Meu veneno
Meu antídoto
Minha doença
Minha cura
Meu desejo
Meu sossego
Meu espaço
Minha cela
Meu céu e meu inferno
Tu, somente tu és
Quem mais amo
Quem mais odeio
Do amor ao ódio
Qual a diferença
Quando és tu
Meu canto e meu silêncio
Minha vida
Razão de minha morte
Força e fraqueza
Virtude e aleijão
Coragem e covardia?
Embriaga-me
Despedaça-me
Sacrifica-me
Sou mar encapelado
Sou fel derramado
Sou Kahlo.

  • out
  • 09
  • 2009

A Porta

Categorias: Histórias

História de LUCIANA DE SANTANA FERNANDES

Aquele jardim enorme, desarrumado, sujo. Folhas secas estavam espalhadas por todos os lados. Não sei onde estava, mas me parecia estar num lugar fantasmagórico. No entanto, mesmo parecendo estranho, não sentia medo.Empurrei a porta de entrada e vi quão grande aquela velha casa era. Não fosse o barulho das tábuas a ranger e algumas madeiras quebradas no chão, diria que era bonita. Caminhei por entre os cômodos da parte inferior e me chamou a atenção a cozinha estar vazia. Não havia sequer um armário velho.Pensei em explorar a parte superior da casa. Pensei e fui. Na realidade, nada de anormal lá em cima, até que… Uma porta. Ao abrir vi uma escada. Subi. A cada degrau, aquele ranger de madeira realmente me incomodava. Um pequeno cômodo em forma de circulo é o que estava no fim daquela subida. Na verdade, era uma torre muito parecida àquelas de castelos medievais.No chão, estavam espalhados muitos objetos antigos. Aquela casa deveria ser mais velha do que pensei. De repente, A PORTA. Tinha acho que um metro de comprimento, preta e de ferro.Um medo pouco a pouco tomou conta de meu interior. Aquele pavor incontrolável, inexplicável, como se algo muito ruim e medonho estivesse aprisionado ali. Um calor enorme se apoderou do meu corpo. E por um impulso só consegui fugir. Dei-me conta, então, que estava sentada na minha cama, os lençóis ensopados de suor.Apenas um sonho…Em pouco tempo, fui à casa de minha vó fazer-lhe uma visita. Tudo ia muito bem até perceber os três cômodos: A SALA DE JANTAR, O BANHEIRO E A COZINHA. Vazios! Oh, meu Deus! Eu estava ali novamente.Percebi que era a mesma casa, mudada é verdade, mas era a mesma. Ninguém mais se encontrava ali. Só eu e em minha frente ela: A PORTA. Novamente, aquele pavor tomou conta de mim e de novo despertei no meio da noite.Meses se passaram e nem sinal daquele sonho apavorante. Na realidade, nem me recordava mais daquilo. O meu mundo onírico era estava calmo e feliz. Os sonhos eram como brisa em dia quente a acalentar meu sono tranqüilo.No entanto, numa noite… Encontrava-me numa bela casa. Muitos quartos, banheiros, salas e saletas. Até que… A SALA DE JANTAR, O BANHEIRO E A COZINHA. Por mais que aquela casa se apresentasse diferente, renovada, estes cômodos sempre apareciam e a denunciavam.Entretanto, desta vez não havia porta. Já era noite, o quintal escuro. Minha irmã estava comigo. Tentamos acender a luz, todavia a lâmpada estava queimada. Mesmo em meio a escuridão, percebi que havia um construção por trás da casa. O terreno todo bagunçado denunciava o descuido e retomava a paisagem da primeira vez a qual estive no local.De repente, senti a presença de mais alguém. Nos observava. Percebi a janela aberta e compreendi que este ser tinha acesso ao interior da casa. Entrava e saia quando quisesse, sem que ninguém visse ou percebesse.Corremos. A coisa nos perseguia.— Está atrás de nós! Está atrás de nós!Medo, pavor… Não conseguia olhar para trás. Nem mesmo sabia quem ou que me perseguia. Até que………………………………………………………………………………………………………….Caída no chão. Vi-me perdida. Se tinha que morrer ou sei lá o que, pelo menos queria ver quem era meu algoz. E qual grande foi meu horror! Não era homem, nem animal. Estava diante de mim eu mesma fitando profundamente a mim.

  • out
  • 08
  • 2009

Banquete de natal

Categorias: Histórias

História de Eridelson de la Serna

Passos bípede. Para mim era como se fosse terremoto oriental. Minha maior fobia. Corro desesperada, igual bandido foge da polícia. Parte dos meus tecidos excretam. Não consigo descrever minha dor. Talvez a dor do parto de uma mãe com quadril estreito. Também não conseguiria descrever sensatamente. Já encontrava-me insensata. E em seguida, novamente. Só que agora, com mais força. Largava uma pegada sobre mim como uma martelada no prego. E ainda torcia como se apertasse um parafuso. Foi justamente assim que morri. Pisoteada. Eu poderia ter escapado da morte se o maldito bípede me chutasse para longe. Talvez para o lixo ou cloaca. Mas não! Ele insistiu em me espezinhar mais uma vez para ter certeza de que estaria completamente morta. Como um sujeito que descarrega uma arma de fogo em outra pessoa para garantir a morte do inimigo. Quando na verdade um só tiro bastava.
Mas o estranho foi: após certificar-se da minha morte, o bípede foi embora e deixou-me adesivada em seu carpete. Como alguém que faz uma visita e, entre conversas, espirra contra vontade, lançando um jato de catarro no tapete alheio e põe o pé em cima para disfarçar. Estava eu sobre aquele solo quente e macio quando me deparei de imediato com um exército de formigas. A tropa vinha ao meu encontro, assim como um felino vai de encontro ao cheiro do sangue. Muita confusão entre os artrópodes até conseguirem erguer-me. O trajeto foi longo. Talvez fosse perto, mas à passos de formigas! Inda mais o meu peso. Pareciam léguas.
Ao longo do trajeto, imaginei coisas excêntricas. Acalmei-me. Tentava imaginar que tal situação era minha marcha fúnebre. Em latim, pois não compreendia nada daquela conversação. Cheguei a um buraco obscuro. Imaginei ser o meu túmulo. Mas não poderia ser. As formigas também ficaram lá dentro comigo. Eufemismo de minha parte. Era vinte e cinco de dezembro. Não tive a recompensa de nunca mais morrer, digna aos mortos. Morri duas vezes. Tornei-me banquete de natal.

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DEPOIMENTOS



"Acho importante porque essas feiras sempre são cheias de gente, crianças. É muito importante. É muito bom que essas têm acesso ao mais diversos tipos de livros. Em relação a Ciência, é bom as pessoas entenderem os planos futuros e a capacidade de impactar o futuro." Miguel Nicolelis – neurocientista



"Eu acho que uma feira dessas é importante para a difusão dos livros, que é o veículo da literatura. É fundamental e, felizmente, está cada vez mais presente no país. É fabuloso." Joca Reiners Terron - escritor



"Eu acho que a Bienal já está consolidada no calendário cultural da cidade. É um dos eventos que colocam o Recife em uma posição destacada nesta área." Homero Fonseca - jornalista e escritor