
Considerado recentemente um dos brasileiros mais influentes do mundo e reconhecido internacionalmente como um praticante de uma ciência revolucionária, o neurocientista e pós-doutor, Miguel Nicolelis, esteve na VIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco para falar sobre seu livro “Muito Além do Nosso Eu”, lançado este ano, pela Companhia das Letras. No auditório Beberibe, no Centro de Convenções, Nicolelis falou sobre as experiências que desenvolve no laboratório na Universidade Duke, nos Estados Unidos, e sobre a primeira cidade da ciência, instalada na periferia de Macaíba, no Rio Grande do Norte. Com artigos publicados nas revistas mais respeitadas sobre o tema, no mundo inteiro, Nicolelis, acredita, acima de tudo, no poder da Ciência como agente transformador de uma sociedade, principalmente, a brasileira.
Entre as suas descobertas, está a de libertar o cérebro dos limites físicos do corpo. A experiência, feita com primatas, foi a de controlar um braço robótico apenas com ondas elétricas do cérebro. “O cérebro não é um agente passivo que decodifica e sim um simulador da realidade. Ele esculpe uma visão de corpo a ponto de que qualquer elemento pode ser incluído ao modelo corpóreo”, afirma o cientista. Tudo aquilo, segundo Nicolelis, que se usa para expandir a dimensão do corpo, para o cérebro, faz parte de nós. O processo foi feito com a macaca Aurora, nos Estados Unidos, e levou cerca de um mês.
Outra experiência foi a de fazer um robô, no Japão, andar sobre os impulsos elétricos do uma macaca, vindos dos Estados Unidos. Com estas duas experiências, o neurocientista alargou o conceito do Eu e ainda trabalha com a hipótese de quadriplégicos – aqueles que não têm nenhuma sensação tátil abaixo do pescoço, devido a lesões gravíssimas na medula – conseguirem adquirir qualquer tipo de movimento devido à incorporação, por parte do cérebro, daquele objeto que se encontra em sua frente. “O Eu não termina na última camada epitelial do corpo, mas no último átomo da ferramenta que o cerca”, conclui.
Em 2003, o neurocientista mandou uma carta ao então presidente Lula para tentar implantar um projeto que tivesse a Ciência como um meio de transformação social. Feito o acordo, Nicolelis foi até Macaíba, a periferia do Rio Grande do Norte, no Nordeste brasileiro, para fundar o Instituto Internacional de Neurociência de Natal. Macaíba era conhecida pelos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil e os jovens estudantes não tinham qualquer esperança de um futuro de sucesso, quiçá duradouro. Com a chegada do Instituto, que tem o compromisso de não apenas “produzir papel e ganhar dinheiro produzindo mais papel”, como diz o cientista, mas também de transformar o conhecimento em agente de transformação local através de duas escolas científicas, para mil alunos, junto com projetos sociais para mulheres.
Nicolelis acredita que a educação de uma criança deve ser pensada desde o útero materno, o que diminuiu drasticamente a mortalidade infantil, com os exames de pré-natal que também são feitos no local. As aulas são práticas e 22 crianças já receberam uma bolsa para pesquisa. Outras três já estão trabalhando nos principais projetos científicos do país, entre eles, o biodiesel. Professores da rede pública de ensino também são ensinados, uma vez por mês, para acompanhar o desenvolvimento dos alunos. “ Eles saíram da indulgência e, hoje, acreditam que nada é impossível”, diz. “ É uma escola de cidadãos. É um casamento de Santos Dummont com Paulo Freire: ousadia e amor incondicional.”, finaliza.
Em Macaíra, estão sendo desenvolvidas todas as experiências citadas por Nicolelis junto com o Projeto Andar de Novo, onde diversos cientistas construirão uma veste robótica de corpo inteiro que serão controladas apenas pelas tempestades elétricas cerebrais de um quadriplégico, o que o possibilitará andar de novo. Para um futuro próximo, Nicolelis pretende expandir e criar o Instituto de Neurociência de Jundiaí, com 16 mil m2 de escola, quadra de esportes e reabilitação, parque neurotecnológico para criar a Cidade da Ciência. “A ideia é que, no Brasil, existam mais 16 Cidades da Ciência, com diferentes tópicos, principalmente nas regiões do Norte, Centro-Oeste e Nordeste”, afirma.
“ A Ciência é uma forma de democratizar a sociedade, uma forma de soberania nacional”, rechaça Nicolelis. A meta é que, na abertura da Copa do Mundo, em 2014, duas crianças quadriplégicas entrem capitaneando a seleção brasileira e deem o ponta pé inicial na bola. “Seria um gol da Ciência brasileira para toda a humanidade. Se foi um brasileiro que acreditou que o sonho impossível de voar era factível, então todos os sonhos serão realizados sobre a luz do Cruzeiro do Sul”, finaliza.
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