Texto enviado por Mônica Serra Silveira
O que menos pode querer um repórter na hora de uma entrevista é perder a concentração, é se descontrolar, explodindo num choro ou numa gargalhada. Mas o fato é que ninguém está imune a isso. Não importa o tempo de experiência na profissão, a frieza ou segurança que tenha. Há sempre um momento em que a guarda fica baixa e a surpresa do acontecido faz aflorar emoções inesperadas.
Foi justamente isso o que aconteceu com Berenice. O chefe de reportagem a chamou, pediu que ela fizesse uma entrevista com um escritor, que se encontrava na sala de espera. Tratava-se de um homem de meia idade, cara simpática e semblante tranqüilo. Berenice ficou à vontade com ele, mesmo sem ter tido tempo de conversar antes, já que a equipe de externa já havia chegado. Tudo bem, afinal era só mais um livro. Nada que precisasse de uma grande preparação. Bastava apenas saber o básico. Berenice empunhou o microfone, que foi direcionado de forma inclinada a um palmo da boca do entrevistado.
- Do que trata o seu livro?
Com uma expressão compenetrada, o escritor respondeu.
- Trata-se de um crime ecológico…
- É mesmo, que crime?
- Uma mulher que matou uma jumenta por ciúme do marido, na noite de Natal.
Aquilo veio como uma torta na cara, um tombo no meio da rua. Berenice explodiu numa gargalhada a toda altura, em plena gravação. Por mais que tentasse não conseguia segurar o riso.
- Não ria. É sério. Um crime ecológico…
Berenice tentou se recompor, percebeu que o homem queria prosseguir com a entrevista. Enxugou as lágrimas risonhas e continuou.
- Certo, e como foi esse crime?
- Na noite de Natal ela deu falta do marido, foi ao estábulo e ele estava com a jumenta.
Berenice deu outra gargalhada. Olhou para a capa do livro e o título era exatamente esse, “A Mulher que matou o Marido com ciúmes da Jumenta”. Pela primeira vez ficou muda diante de um entrevistado, apenas segurou o microfone e aguardou que ele terminasse toda a história. Sabia que não conseguiria perguntar mais nada sem cair na risada. O homem terminou de falar. Ela agradeceu e ele se foi. Passado o ataque de riso, Berenice escreveu um texto bem humorado e entregou a matéria para a edição.
Mas sempre que comentava o caso para algum colega, voltava a rir, só de lembrar.
- Berenice, uma vez eu também cai na risada, no momento que estava gravando uma sonora.
- É mesmo, e como foi?
- Estava fazendo um povo fala. Era um daqueles dias em que ninguém parava para responder a enquete. Tentei com várias pessoas, mas receosas, elas diziam que estavam com pressa. Até que finalmente, um rapaz parou e perguntei se poderia responder a uma pergunta rápida. Acenou afirmativamente com a cabeça. Animadíssima, levei o microfone até ele e perguntei. Só que o rapaz era completamente fanho e nada do que ele falava dava para entender. Não deu para segurar, cai numa gargalhada. Foi uma situação muito constrangedora. O entrevistado perplexo, olhando para a equipe. Inventei uma desculpa e pedi para recomeçar. Felizmente, respirei fundo e consegui repeti a pergunta. Ouvi tudo com atenção. Claro que a resposta não foi aproveitada na matéria…
- A sorte é que não era ao vivo, né ?…
- Mas situações como estas já aconteceram ao vivo sim, em grandes redes de televisão. O importante é retomar as rédeas, levar o pensamento em outra direção, respirar, se concentrar e tentar se recompor. Agora se for uma entrevista com um humorista, podemos dar um risinho aqui outro ali, sem exageros. Não faz mal. Aliás, nesses casos é até bom interagir um pouco.
- É mas às vezes caímos em belas armadilhas…