O Comunicador da Maioria perdeu a mãe aos cinco anos, fugiu para o Recife aos nove, e aos 22 já era líder do Ibope

Escrita a quatro mãos, a biografia O que eu disse e o que me disseram – A improvável vida de Geraldo Freire, de autoria do próprio Geraldo e de Eugenio Jerônimo, mostra o percurso do radialista, que, antes de se transformar num dos maiores comunicadores do Brasil, viveu uma história cuja sucessão de fatos parecia impeli-lo a ser mais um nordestino do interior condenado a lutar diariamente pela sobrevivência.

Embora não consiga se imaginar sem naturalidade pernambucana, Geraldo Freire é natural do Ceará, da cidade de Caririaçu.  Sua família se mudou para Pesqueira, no Agreste de Pernambuco, quando ele era ainda uma criança de colo. Seu pai veio trabalhar na Fábrica Peixe. Alguns anos depois, ficou desempregado. Em seguida morreu sua mãe, quando ele tinha cinco anos apenas. Aí começou uma saga de sofrimento. Perambulou com o pai em subempregos catando tomates e vivendo quase como nômade nos ranchos improvisados nas roças.

Entre os cinco e os nove anos Geraldo experimentou a fome e o frio. Casado de novo, seu pai impôs-lhe a tarefa de tomar conta das novas filhas, enquanto com a esposa ia trabalhar na roça. Isso privou o menino de um dos únicos prazeres de que desfrutava: as aulas de leitura na Escola Rural Municipal de Fundão de Dentro, na vila de Cimbres, em Pesqueira.

Aos nove anos, Geraldo Freire fugiu de trem para o Recife e foi para a casa de uma tia, que morava no bairro de Água Fria, onde já viviam suas duas irmãs, uma das quais tirou um novo registro de nascimento para que o menino pudesse tirar carteira de trabalho, aumentando-lhe a idade dos nove para os 14 anos.

Então, ele fez de quase tudo. Trabalhou como menino de recado, balconista de venda, auxiliar de camelô, carteiro de santos [entregava correspondência de uma empresa que vendia estátuas], carregador de gravador de um publicitário [os equipamentos eram muito pesados].

Até que, em 1968, entrou para a rádio Repórter, construindo na sua carreira vitoriosa e singular de comunicador que perdura nos dias atuais com plena vitalidade.

Na primeira parte do livro – A improvável vida de Geraldo Freire – Eugenio Jerônimo afirma que, embora à primeira vista o que impressione em Geraldo seja a sua linguagem direta, pornográfica até, isso é apenas a manifestação de um talento superior. “Geraldo não é um atirador de palavrões a esmo. Ele desenvolveu uma poética do palavrão. Nada na sua linguagem é por acaso, ele tira notáveis efeitos do emprego dos termos que usa”. Além disso, continua o escritor, “Geraldo é um exímio tradutor de conceitos complexos para a linguagem do povo. Veja a tradução que ele fez de um mosquito desenvolvido em laboratório para que as fêmeas do mosquito transmissor da dengue reproduzam espécie débil: ‘um mosquito gala rala’?”

Eugenio também expõe o caráter humano e solidário do Comunicador da Maioria, que se concretiza com a desinteressada ajuda a muita gente.

Na segunda parte do livro – O que eu disse e o que me disseram –, é o próprio Geraldo quem reconstitui um mosaico de histórias que viveu ao longo de cinco décadas de rádio. São bastidores da política, da música, do futebol e do próprio rádio. Coisas engraçadas e surpreendentes sobre personalidades como Dom Helder Camara, Miguel Arraes, Marco Maciel, Roberto Magalhães, Luiz Gonzaga, Dominguinhos. Todas as histórias, claro, com a pimenta verbal de Geraldo. Numa passagem, o presidente do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, João Carlos Paes Mendonça, afirma que Geraldo é um homem feliz porque faz o que gosta. Ele responde: “Quem gosta de rádio é o senhor, que tem seis. Eu gosto de conversar merda, tomar cachaça, viver na vida mansa. Essa minha entrega total ao rádio é para o senhor não me botar pra fora!”. Não faltam também pesquisas e curiosidades sobre os assuntos mais inusitados.